Congresso da Unitins debate uso de inteligência artificial na gestão pública e desafios da inovação na Amazônia Legal

Segunda noite reuniu especialistas para discutir aplicação prática da tecnologia e obstáculos à modernização em regiões com baixa conectividade

samir ryam Gestão Pública 17/04/2026 16:19

Evento reuniu especialistas, estudantes e gestores públicos em Palmas - (Foto: Nonato Silva/DicomUnitins)


A segunda e última noite do I Congresso Nacional de Gestão Pública, Tecnologia e Inovação, realizada nesta quinta-feira, 17, em Palmas, concentrou debates sobre o uso da inteligência artificial na administração pública e os desafios para modernizar serviços e ampliar o acesso à inovação na Amazônia Legal. Promovido pela Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (Fapt), o evento reuniu pesquisadores, professores, acadêmicos e gestores públicos.

Com mais de 1,1 mil inscritos, o congresso foi encerrado com duas palestras voltadas à aplicação de tecnologia em políticas públicas e à realidade estrutural da região Norte. A programação ocorreu no auditório da sede administrativa da Unitins, com transmissão ao vivo pelo canal da Proex no YouTube.

A primeira palestra da noite foi ministrada por Jeferson Morais, diretor do Núcleo de Inovação Tecnológica da Unitins e professor do curso de Sistemas de Informação, com o tema “Uso de inteligência artificial como ferramenta de gestão de políticas públicas”. Na exposição, ele defendeu que a inteligência artificial deve ser tratada como instrumento de apoio à tomada de decisão, não como substituta da atuação humana.

Ao abordar conceitos como aprendizado de máquina, processamento de linguagem natural, análise preditiva e visão computacional, o pesquisador afirmou que a eficiência dessas ferramentas depende da forma como são alimentadas, supervisionadas e aplicadas dentro da gestão pública. Segundo ele, o uso qualificado da tecnologia pode ampliar a capacidade do poder público de interpretar dados, antecipar problemas e formular respostas mais precisas para demandas sociais.

Durante a palestra, Jeferson apresentou exemplos de aplicação da inteligência artificial em áreas como saúde, educação e segurança pública. Entre os casos citados, estiveram o monitoramento epidemiológico, a identificação de alunos com risco de evasão escolar, a análise de desempenho de redes de ensino e o uso de sistemas inteligentes para leitura de dados e apoio à fiscalização.

O pesquisador também destacou experiências já em curso no país e chamou atenção para iniciativas desenvolvidas no Tocantins, como ferramentas criadas pela Defensoria Pública do Estado para dar mais agilidade ao atendimento e ao tratamento de processos. Para ele, o avanço tecnológico precisa estar associado a critérios de responsabilidade, transparência, controle e sensibilidade social.

Na avaliação do palestrante, a inteligência artificial tem potencial para reduzir desigualdades e aperfeiçoar a gestão, desde que esteja vinculada a dados confiáveis e à presença ativa de profissionais capazes de interpretar contextos e corrigir distorções. “A tecnologia não substitui o ser humano. Ela amplia a capacidade de leitura e de resposta, mas exige curadoria, senso crítico e responsabilidade sobre as decisões”, sustentou ao longo da apresentação.

Amazônia Legal, desigualdades e interiorização

A segunda palestra da noite teve como tema “Modernização da gestão pública e os desafios na Amazônia Legal na inovação e suas tecnologias” e foi conduzida por José Fernando Miranda, coordenador do curso de Gestão Pública da Unitins e anfitrião do congresso. Em sua exposição, ele defendeu que o debate sobre inovação na região Norte precisa considerar as desigualdades territoriais, a dificuldade de acesso a serviços básicos e os entraves históricos para interiorização de políticas públicas.

José Fernando afirmou que a modernização da administração pública não pode ser tratada apenas como adoção de novas ferramentas, mas como resposta concreta a problemas que ainda atingem parte significativa da população. Ao citar realidades de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e municípios afastados dos grandes centros, ele ressaltou que o desafio não está apenas em criar soluções tecnológicas, mas em fazê-las chegar a quem ainda enfrenta limitações de conectividade, infraestrutura e acesso à informação.

Na palestra, o professor apontou que a Amazônia Legal concentra obstáculos logísticos, sociais e econômicos que exigem políticas públicas ajustadas ao território. Também defendeu a necessidade de mais projetos estruturados para captação de recursos, diante da existência de linhas de financiamento ainda pouco acessadas por instituições e gestores da região.

Ao tratar do contexto tocantinense, José Fernando destacou o papel do projeto TO Graduado, da Unitins, como exemplo de interiorização do ensino superior e democratização do acesso à formação. Segundo ele, a iniciativa tem contribuído para fixar mão de obra qualificada no interior, ampliar oportunidades para estudantes de municípios menores e fortalecer a presença da universidade em regiões onde o acesso ao ensino superior presencial é mais limitado.

O coordenador também chamou atenção para a necessidade de alfabetização digital, formação continuada de servidores, proteção de dados e estímulo a projetos voltados à bioeconomia, conectividade e inovação pública. Para ele, a discussão sobre tecnologia precisa estar vinculada à realidade social e ao fortalecimento da dignidade humana. “A gestão pública na Amazônia não pode ser pensada de forma linear. Ela precisa considerar o território, as diferenças regionais e a necessidade de construir soluções que façam sentido para quem vive aqui”, defendeu.

Ao longo dos dois dias de programação, o congresso discutiu inovação, tecnologia, gestão pública, produção científica e desenvolvimento regional, reunindo especialistas de diferentes áreas. Para a Unitins, o encontro reforça o papel da universidade na formulação de debates voltados à qualificação da administração pública e à construção de soluções voltadas à realidade amazônica.




 

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